Mulheres do Contestado

Fórum SC-Gen -
 Release de "As Mulheres do Contestado", tema abordado no programa "Nossa História", com a participação de diversos entrevistados, dentre os quais destacamos nossa colega Sinira Damaso Ribas!


De: "programa Nossa Historia"
http://br.f528.mail.yahoo.com/ym/Compose?To=nossahistoriaam630@hotmail.com
"As Mulheres do Contestado" - tema do programa "Nossa história" de 25 de agosto de 2007 - sábado, seis da tarde, transmitido pela Rádio Paraná educativa am 630.A jornalista Zélia Sell, que já pesquisa o tema, reuniu escritores e historiadores que encontraram, em seus trabalhos de genealogia, perfis de parentes do sexo feminino que viveram nessa época.
O Contestado é um tema abordado em livros de dezenas de autores, mas o destaque à participação feminina no episódio não tinha acontecido até então.
As bravas mulheres do Contestado tiveram suas propriedades invadidas, seus bens saqueados e seus parentes mortos de forma cruel. Mães de família, fazendeiras, comerciantes, parteiras, elas foram conduzidas a redutos e muitas vezes se transformaram em guerreiras valentes como Maria Rosa e Chica Pelega.
O programa apresentará também o projeto para que uma praça seja dedicada em Curitiba a essas mulheres.
"Nossa História" pode ser ouvido pela internet no sábado, das 18h00 às 19:00 horas na página:
http://www.pr.gov.br/rtve
clicando no link à esquerda da tela onde se lê "Rádio am 630 ao vivo".
Sugestões podem ser enviadas para: Caixa Postal 25 - CEP 80011970- Curitiba-Paraná


Mulheres no Contestado
Sinira Damaso Ribas

No tema, Mulheres no Contestado, meu enfoque é sobre uma senhora da população civil, que se viu envolvida no conflito.


Vou contar a história de Maria Peters da Silveira, (1881–1967), nascida em Bela Vista do Sul SC, descendente de imigrantes alemães.
Maria era irmã gêmea de João, nascidos em 1881. É filha de João Peters (1841) e de Rosa Peters (1844), por sua vez, filha de Suzana Stresser (1818) e Jacob Peters (1813). Suzana era filha de Suzana Maria Raiter e João Stresser (1800), chegados em Rio Negro em 1829.
Criou-se em Bela Vista do Sul (hoje Mafra), numa família numerosa, envolvida nas lides campeiras e lavoura. As meninas preparavam-se para ser donas de casa e boas mães de família, tarefa que ficava a cargo de sua mãe, Dona Rosa Peters. A família era católica e repassava aos filhos a rígida educação que trouxe do berço da longínqua Alemanha. Casou-se com Luís Damaso da Silveira Filho (1873 – 1938), morador de Bela Vista do Toldo SC, nascido na Lapa PR.
Maria era uma mulher alta, meiga, de traços delicados, culta, lia muito. Estava sempre de vestido longo e na mocidade usava espartilho. Para andar a cavalo, as mulheres sentavam-se de lado, sobre o selim e o vestido era estendido sobre a garupa do animal.
O casal Luís e Maria veio morar na localidade de Salceiro, nas proximidades de Canoinhas, já no início do século passado. Ali construiu casa de morada, com amplos galpões e celeiros. Cuidavam da agricultura de subsistência, criação de gado e suínos.
Marica assumia o encargo de cuidar das vacas de leite, da horta, do jardim, e da criação dos filhos. Contava para isso com a preciosa ajuda de algumas serviçais e já com as meninas mais velhas para cuidarem dos irmãos pequenos. Era uma dona de casa dinâmica e prendada. Com a abundância de leite que se produzia, fazia queijos, que eram vendidos em Canoinhas. Para isso, uma vez por semana, Marica chamava os meninos para atrelarem um animal em sua charrete e lá ia ela, com algumas crianças menores até à cidade, vender queijos curados, ovos, requeijão, nata e leite fresco.
Em janeiro de 1912, Marica, com apenas 31 anos, já tinha os filhos, Rosa, Vitório, Davino, Hercílio, Anita e João Batista.
Iniciava-se o ano de 1912, e Maria, já em 15 de fevereiro, pariu o seu 7º filho, o pequeno Jair. Numa madrugada, quando o nenê estava com 17 dias, a família foi acordada com o aviso de que jagunços estavam se aproximando do Salceiro e era preciso tomar providências para não perecer.
Dias antes Luisinho já soubera que em Canoinhas, alguns revoltosos andavam fazendo motins na localidade. Muita gente estava sendo injustiçada por ação de desapropriações e desmando de alguns chefes da Lumber. As autoridades se mostravam omissas e alguns líderes da comunidade se colocavam a favor dos injustiçados revoltosos.

Em 1910, a Souther Brazil Lumber and Colonization Company, instalou-se em Três Barras e construiu ramais ferroviários que partiam do pátio da serraria e rasgavam densos pinhais, prejudicando muitos posseiros e proprietários que há muito viviam no planalto.
A região era habitada por descendentes de alemães, imigrantes poloneses e na grande maioria pelos caboclos nativos ou operários da Lumber.
Com o conhecimento do perigo iminente, Luís e Marica tomaram seus filhos, alguns pertences e saíram de casa, pelos fundos da propriedade, de barco, através do rio Canoinhas. Pelo rio seguiram até certo ponto e depois a cavalo rumaram por terra a Bela Vista do Sul para se refugiarem junto aos familiares Peters.
Entre as peripécias da viagem consta que o bebê Jair caiu do cavalo, mas nada de pior aconteceu porque estava envolto em mantas e muito bem acondicionado nos tradicionais cueiros e faixas de antigamente.
A casa da família Damaso da Silveira, no Salceiro foi saqueada pelos jagunços, que dela levaram tudo e inclusive animais e víveres dos celeiros. Para completar o quadro de destruição a casa foi queimada e só sobrou a chapa do fogão jogada dentro do poço.
Imaginemos a angústia que passou a família com 7 filhos, quase sem roupas, sem cobertas, sem móveis e sem casa. O importante é que ninguém pereceu.
Maria foi muito forte nesta adversidade e encontrou em Bela Vista do Sul, no seio da família Peters o abrigo. O mesmo aconteceu com Luís, que foi ajudado nesta triste circunstância, pelos irmãos e pelos pais, moradores em Bela Vista do Toldo.
Era gente de pulso firme e não se deixou abalar.
A família de Maria e Luizinho Damaso ficou por vários meses em Bela Vista do Sul e o bebê Jair Damaso da Silveira só foi batizado em Canoinhas, pelo Frei Menandro Kampe em meados de agosto de 1912, quando a família regressava do exílio.
Reconstruíram sua casa de morada no Salceiro, ainda maior e melhor, um casarão, hoje restaurado e tombado para preservação.
Dona Marica Damaso, como era conhecida, ainda teve mais uma filha, Alaíde, e vivenciou até 1915, os horrores da época da revolta do Contestado.
O casal teve ainda a desdita de ver seu pai e sogro decapitado por integrantes de um piquete de jagunços em Bela Vista do Toldo em 27 de julho de 1915, juntamente com 11 moradores. Era o comerciante octogenário Luís Damaso da Silveira.
O conflito terminou em 1916 e a vida voltou ao normal.
Maria Peters da Silveira foi um exemplo de mulher e tenho o maior orgulho do mundo de ser sua neta.

                                                                         * * *

Comentários

  1. Excelente o seu relato acerca de dona Marica Peters. Permita-me utilizá-lo em meu trabalho de pesquisa sobre a história e a genealogia de Canoinhas. A foto também é muito bonita! Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Mayara Solarevicz28 de maio de 2013 20:18

    Olá, que belo texto! E que história linda. Estou fazendo meu TCC no curso de jornalismo sobre a participação das mulheres no Contestado. Como faço para entrar em contato com a senhora? Meu e-mail é may.dl@hotmail.com, por favor, me escreva. Obrigada e novamente, parabéns, pelo texto e pela sua avó.

    ResponderExcluir
  3. Gostei da sua narrativa. Enriqueceu o conhecimento das memórias e raízes da família. É a história da minha bisavó, vó do meu pai Neyde Damaso da Silveira. Parabéns pelo brilhante trabalho. Abraço!

    ResponderExcluir
  4. Obrigada, gente. Hoje, com muito gosto vou participar de um evento comemorativo dos 100 anos do final da Guerra do Contestado, em Canoinhas.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Rio Itajaí do Norte. Papanduva

A Cidade de Papanduva

Dr. NATANIEL VIUNISKI - Nutrólogo - Palestra em Curitiba