quinta-feira, 15 de março de 2012

PROGRAMA NOSSA HISTÓRIA - NOVA PARTICIPAÇÃO

Tema: HISTÓRIAS DO CONTESTADO

Neste fim de semana de 17 e 18 de março - 2012 a Rádio E Paraná apresenta o primeiro de uma série de programas sobre o Contestado.
Minha participação desta vez foi sobre  "Mulheres do Contestado"



A jornalista e mentora do programa ,  Zélia Sell introduziu o tema falando que "no Brasil, entre os inúmeros movimentos de resistência está a Guerra do Contestado. Comparada a Canudos - lamentando-se tão somente não ter havido um Euclides da Cunha para narrá-la-, a Guerra do Contestado ocorreu no início do século XX (1912 a 1916) e foi uma disputa de terras - 48 mil quilômetros quadrados - entre os estados do Paraná e Santa Catarina. Neste ano de 2012 o episódio completa seu centenário e novas pesquisas vem à tona e, como a história, que se refaz a cada dia, novos aspectos são revelados".
Fui uma dos convidados para rememorar o episódio nessa série de discussões sobre o tema.

        Meu companheiro do programa Gehad Ismail Hajar, pedagogo, pesquisador e membro do Instituto Histórico e do Centro de Letras do Paraná, trouxe novas informações sobre o conflito e discutiu aspectos jurídicos sobre a questão das terras contestadas.
A mim, coube, mais uma vez discorrer sobre o papel da mulher na Guerra do Contestado.
 
        Há dois anos já falei sobre Maria Peters da Silveira, minha bisavó paterna, como protagonista da população civil no confronto entre militares da República e colonos revoltosos na referida guerra, palco do mais violento e prolongado movimento armado da história do país.

Hoje retomo o tema, mas falando de uma cabocla valente, integrante de grupos de revoltosos, a famosa CHICA PELEGA, a Guerreira de Taquaruçu.

                            Foto - Revista História Catarina                     
      
            
         Taquaruçú era um reduto dos fanáticos na Guerra do Contestado, no planalto catarinense. Localizava-se no município de Curitibanos, divisa com Campos Novos.
             A história da nossa heroína começa com a vinda dos seus pais do Rio Grande do sul e sua instalação como posseiros numa área no vale do rio do Peixe, nas terras contestadas pelo Paraná e Santa Catarina.  Não tinham filhos e com isso não tiveram dificuldades para desbravar seu chão e construir um rancho. Ali viviam da lavoura por bom tempo.
            Quando ouviram falar que perto dali seria construída uma estrada de ferro, imaginavam que a situação iria melhorar, porém, enganaram-se.
O que mais infelicitava o casal era o fato de não terem filhos, até que alguém lhes falou nos milagres de “São João Maria”. Procuraram então um local onde o santo monge havia pernoitado por três dias e tomaram pedaços de carvão dos restos da fogueira do eremita e fizeram dois patuás para serem carregados pelo casal esperançoso, na fé, de que teriam um filho.
Pouco depois o milagre aconteceu e Francisquinha ficou grávida, ao mesmo tempo em que suas lavouras prosperavam.
             O bebê, uma menina, veio ao mundo na roça à beira de um riacho, onde logo em seguida, mãe e filha se banharam. Assim, nasceu em plena luz do sol e no contato direto com a terra, a robusta Francisca Roberta”.

            Chica, como era chamada, com o tempo, foi demonstrando a habilidade que tinha em tratar dos animais. Filha do sofrimento, da promessa e da fé, a partir dos dez anos desenvolveu habilidades paranormais e a fazer curas com ervas.   Com doze anos já era uma perfeita amazona.  Aos treze anos, manejava a montaria e o laço como homem feito”.
         Sua fama de curadeira e habilidades em minorar sofrimentos, correu longe.    Certa ocasião, quando curava um animal agonizante conheceu Zico,  filho de  fazendeiro.
          Zico e Francisca Roberta começaram a namorar. Dançaram no baile de inauguração da ferrovia que traria o “progresso” para a região.
           Chica e Zico construíram uma casa 5 km longe do local em que passaria a ferrovia a qual tinha como dono o americano Percival Farquhar, que fundara a Brazil Railway Company. A obra compreendia os trechos entre os rios Iguaçu e Uruguai, seguindo pela bacia do Rio do Peixe e  foi um dos pivôs da Guerra do Contestado. Para explorar a madeira ao longo da linha, os americanos criaram a Lumber com duas enormes serrarias. Foi o maior empreendimento ferroviário-extrativista da America Latina. Na verdade a companhia americana ganhou do governo brasileiro a concessão de tirar a madeira por 30 km ao longo de toda a estrada de ferro e ainda o direito de vender as terras a  emigrantes estrangeiros.
 Capitão Palhares, cruel e sanguinário, era o homem de confiança da empresa americana e se constituía na autoridade responsável por aquela faixa da linha férrea. Os homens, comandados por Palhares, começam a invadir as propriedades próximas à linha de ferro (cerca de 15 km de cada lado da estrada). Passaram a expulsar a qualquer custo os antigos moradores e posseiros que viviam do trato da terra e extração de erva-mate.
Os noivos de nossa história estavam prestes a se casar quando surgem os capangas do Capitão, e matam Zico e botam fogo na casa que abrigaria em breve o novo casal. Mataram inclusive o pai da moça.
 Francisca Roberta e sua mãe voltavam da lavoura quando se depararam com o triste quadro. Então, ao mesmo tempo houve um só grito, um só pavoroso urro arrancado de duas gargantas, e caíram ambas de joelhos junto aos corpos contorcidos. Uma cena horripilante, de um realismo brutal.”
Enquanto isso surge na região mais um eremita que praticava curas e rebanhava crentes ao seu grupo. Pregava a fé em São Sebastião, no Espírito Santo e se dizia herdeiro dos dons de São João Maria.Os camponeses que tinham perdido o direito às terras, peões ervateiros que se viram sem trabalho e os trabalhadores que foram demitidos pela conclusão em 1910, da companhia da estrada de ferro decidiram, então, ouvir a voz do monge José Maria, sob o comando do qual organizaram uma comunidade.
Era 1912, Francisca Roberta participou de uma festa na localidade de  Taquaruçu sob a liderança do Monge José Maria.  A paranormal Chica teve ali a pré-cognição da missão de curar que teria pela frente e passou a acompanhar o grupo dos caboclos revoltosos porque também fora vítima de espoliação.

Não nos cabe aqui tecer comentários sobre as causas, embates e consequências dos conflitos do contestado.
Nosso foco é a enfermeira e guerreira Francisca.
Para o local do acampamento dos revoltosos seguiam muitas pessoas em busca de bênção e de cura. Chica era agora peça indispensável, pois cuidava muito bem dos doentes que procuravam o Monge. Tão bem, que começou a receber presentes dos romeiros, dentre eles um cavalo e uma mantilha de lã felpuda como um pelego. Ela saía em disparada pelos campos serranos com seu cavalo e com essa matilha e os longos cabelos que esvoaçavam ao vento. Por causa disso, o povo começou chamá-la carinhosamente de Chica Pelega.
Chica continuava com sua missão de cura nos acampamentos de fanáticos. Ganhara um cavalo de boa linhagem de um chefe dos rebelados e sempre era vista, saindo em disparada pelos altiplanos catarinenses em suas incursões solitárias.
  Seguidamente mais uma batalha. Os caboclos revoltosos lutavam com a força de São Sebastião, já os soldados, lutavam com a força da metralhadora que a tudo atingia.
            Um dos bandos de fanáticos andava com Chica Pelega, que se tranformara, além de enfermeira, numa guerreira valente que enfrentava o inimigo com ânimo e coragem dando incentivo aos seus companheiros, muitas vezes famintos e desanimados. Sabia manejar com maestria a corda e o facão. Quando em luta, Chica emitia um estridente grito de guerra e de seus olhos saiam chispas luminosas de indignação.
        O compositor do Contestado, Vicente Telles, mais tarde, cantava:
          “Quem viu Chica Pelega viu chispas de raio clareando o sertão. (...)
          Quem viu Chica Pelega viu fogo no céu e viu sangue no chão”.

Quando de volta ao Taquaruçu, Chica Pelega cuidava dos doentes, costurava, ajudava a erguer os casebres e participava dos salmos.
Continuava trabalhando muito no arraial, até que os chamados jagunços mudaram-se para o reduto de Caraguatá, sob o comando de outra guerreira – a “Virgem Maria Rosa”, deixando somente os enfermos, velhos, mulheres e crianças. Chica ficou, também para cuidar de sua mãe doente.
E aí, em 8 de fevereiro de 1914, acontece o chamado “massacre de Taquaruçu”, porque os militares, mesmo sabendo que o reduto estava desguarnecido, incendiaram os inúmeros barracos e descarregaram suas armas sobre pessoas indefesas.  Todas iam caindo numa verdadeira chacina. Eram granadas explosivas, metralhadoras e obuses. Demoliram, incendiaram, mataram e destruíram a cidade santa. Ao termino do ataque desabou uma chuva torrencial.
“Chica Pelega estendia-se no lodo com o corpo crivado de balas”.
Acabava ali a vida de uma grande mulher, “a filha da terra e irmã da floresta”, a verdadeira heroína do Contestado.
Conforme Vasconcellos
“Um pouco antes do cessar-fogo, quando inda haviam bombas estourando e cerrados estampidos sacudindo a noite, ouviu-se, com terna sonoridade, uma canção de ninar. Uma voz de embalo morno e suave a contrastar com os ásperos ribombos. E então se viu, no relance de um clarão, a mãe de Chica Pelega sentada na lama com a ensanguentada cabeça da filha no colo. Alisava-lhe a cabeça e cantava com doçura, indiferente aos estouros dos obuses, a sua velha canção de ninar”. ( VASCONCELLOS, Aulo Sanford, 2002)


Ainda segundo depoimentos de um sobrevivente, a constatação de que a mãe da brava guerreira, “enlouquecera, em piedosa loucura, agarrada ao cadáver da filha”.
“Chica Pelega representa, mais que tudo, um emblema de luta. Independente de sua existência física; significa a indignada síntese de uma coletividade injustiçada.”
Para a posteridade, Chica Pelega como ícone entre as mulheres do Contestado, deixou como legado  uma herança cultural com uma lição de solidariedade, valentia e de bravura.
Subsídios em: Chica Pelega - A guerreira de Taquaruçu, de Aulo Sanford de Vasconcellos
Revista História Catarina 2 – jan./março.2007
 O Último Jagunço – Euclides Philippe. 1995

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Minha participação não parou aí 


Fui convidada por Zélia Sell a comentar sobre mais duas heroínas do Contestado, da população civil, também vítimas do conflito. Escolhi acontecimentos que enlutaram a minha terra natal - Papanduva.





                                        Mulheres do Contestado III e IV
Manoela Martins de Almeida Haas
Manoela Martins Haas Furtado
                                                                            
         Na herança cultural de cidadãos do Contestado consta uma das mais marcantes páginas já vivenciadas pela população papanduvense.
Trata-se do episódio chamado “Tomada de Papanduva”
* acontecido em 1914.
        Não vamos comentar aqui quais as causas ou os fatores religiosos, sociais, econômicos, antropológicos ou políticos que propiciaram o surgimento de conflitos na região contestada entre Paraná e Santa Catarina.
        Pretendemos somente recordar nefastos acontecimentos oportunizando estudo e reflexões acerca de fatos históricos na construção da sociedade regional.
          
        Para o momento selecionei duas mulheres que vivenciaram os horrores de ataques de fanáticos durante a Revolta do Contestado.
        Em 26 de agosto de 1914 o povoado de Papanduva foi completamente sitiado.Elementos revoltosos, comumente chamados de fanáticos depuseram as autoridades locais, assaltaram casas de comércio, mataram civis e tomaram conta do lugarejo pondo em polvorosa toda a população. A comunidade permaneceu nesta situação por três meses.
Aqui focalizo o drama vivido pela minha bisavó e por minha avó materna Manoela Haas Furtado.
Minha bisavó Manoela Martins de Almeida Haas, esposa de Francisco Martin Haas era nascida em São Paulo em 1868 e viera com os pais, viajando em lombo de burros, pela Estrada da Mata, instalar-se na localidade de Corisco, hoje Santa Cecília SC. Ela vinha em lombo de animais, mas acomodada no colo de um escravo alforriado e de muita dedicação à família.  Perdeu o pai, logo em seguida, mas foi muito bem criada pela mãe.     Casou-se com Francisco Martin Haas, com quem teve 18 filhos, sendo 13 mulheres e 5 homens.
Pouco antes da virada do século passado, pelo motivo de uma epidemia de lepra, a família teve que deixar Santa Cecília e o local escolhido foi Papanduva.
A vida continuou e tiveram a última filha, Teodora, em 1906.
Num dia fatídico de 1914, em pleno conflito do Contestado, a família soube que os fanáticos estavam se aproximando do lugarejo e que no caminho vinham matando adultos e crianças, atacando fazendas e armazéns em busca de víveres.
Mas, não sobrou tempo para nenhuma providência necessária. A família foi assaltada, a casa de comércio saqueada  e esta mãe teve a desdita de ver o seu filho Felipe Haas  ser alvejado em frente de casa. Tombou morto logo mais adiante perto da voltinha do rio Papanduva. Outro filho, Henrique Martins Haas conseguiu salvar-se embrenhando-se na mata adjacente. Os outros filhos adultos não se encontravam no local, com exceção de minha avó Manoelinha, que molestada por um fanático,  foi salva pelo chefe do grupo, Henrique Woland, o conhecido Alemãozinho e segundo ele, por ela ser loira e de olhos azuis, como ele próprio.
A família de meus bisavós teve que refugiar-se por três meses no sítio dos Rauen em Rio Negro, local onde hoje se encontra a Prefeitura de Rio Negro. Seguiram de carroça com os filhos menores, como Teodora, Miguelzinho, Guilhermina e  Luisa.
As filhas moças ficaram no povoado, porque somente as mulheres poderiam sair às ruas. Uma das manas registrou no Cartório de Papanduva, o falecimento do irmão Felipe Haas, casado há apenas 17 dias.
            Manoelinha já era casada com Amaro Furtado e tinha uma filha. Refugiou-se com todos os familiares do patriarca dos Furtado, na Colônia Lucena junto à família Ruthes.

Enquanto isso, os rebelados, em torno de 300, instalaram-se em barracas, no local onde hoje é o ginásio de esportes do Colégio Alinor Vieira Corte e o lugarejo continuava sob o jugo dos sertanejos revoltosos, com as autoridades depostas e com a população subjugada pelo medo.
Não me estendo comentando sobre outros embates e desdobramentos da questão do Contestado.
 
Comento somente sobre a angústia, o desassossego, e a dor destas mães que viam seus filhos expostos ou perecendo numa luta inglória como foi a Guerra do Contestado.
       Relatos destes embates se acham na obra de  minha autoria - Resgate de Memórias – Papanduva em Histórias.
O artigo “A Tomada de Papanduva”, registrei com maiores detalhes, neste local, numa postagem de dezembro de 2008
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·         João Alves da Rosa Filho. Combate do Irani. Curitiba, Pr Optograf, 1998


       

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