A "Tomada de Papanduva"

                          A Tomada de Papanduva



     Na herança cultural de cidadãos do Contestado, consta uma das mais marcantes páginas já vivenciadas pela população papanduvense.
Trata-se do episódio chamado “Tomada de Papanduva” acontecido em 1914.
   Não vamos comentar aqui quais as causas ou os fatores religiosos, sociais, econômicos, antropológicos ou políticos que propiciaram o surgimento de conflitos na região contestada entre Paraná e Santa Catarina.
  Pretendemos somente recordar nefastos acontecimentos oportunizando estudo e reflexões acerca de fatos históricos na construção da sociedade regional.
Em 26 de agosto de 1914 a vila de Papanduva foi completamente sitiada.
   Elementos revoltosos, comumente chamados de fanáticos depuseram as autoridades locais, assaltaram casas de comércio, mataram civis e tomaram conta do lugarejo pondo em polvorosa toda a população.
     Muitas famílias tiveram que se refugiar em localidades vizinhas, por meses, perdendo quase tudo. O bando que tomou Papanduva era chefiado por Aleixo Gonçalves, que a seguir enveredou para Itaiópolis. Outro chefe jagunço, Henrique Wolland, “o alemãozinho”, era o chefe do piquete que por aqui se instalou.
     Segundo o 1º Livro do Tombo da Paróquia de São Sebastião, “entrincheiravam-se na Praça de Papanduva”, no centro da Vila. Aqui permaneceram fazendo terrorismo por três meses. Somente as mulheres podiam sair às ruas.
   A área conflagrada vivia sob a ameaça dos fanáticos. A população se recolhia apavorada ou punha-se em fuga.
     Em 6 de setembro de 1914, sob as ordens do major Benjamim Augusto Lage, as forças paranaenses, instaladas em Papanduva para combater os fanáticos, montaram acampamento, atrás da capela de São Sebastião, onde é hoje o salão paroquial. O local foi escolhido porque oferecia uma boa visão das redondezas. Chegaram a cavar valas fundas no chão para dali montar guarda e usar suas winchesters.
     Os rebelados, em torno de 300, instalaram-se em barracas, no local onde hoje é o ginásio de esportes do Colégio Alinor Vieira Corte.
      Enquanto isto, a nossa vila continuava sob o jugo dos sertanejos revoltosos, com as autoridades depostas e com a população vivendo três meses de terror, subjugada pelo medo.
     Era muito visada a vila de Papanduva, “por estar interposta entre os alojamentos de Aleixo e Tavares” e localizada às margens da Estrada da Mata.
     Em 9 de novembro de 1914, o Presidente do Estado do Paraná autorizou que o Batalhão de Infantaria fosse organizado como “Batalhão Tático” para assim se tentar manter a ordem com mais eficiência.
    Foi preciosa a presença heróica dos milicianos paranaenses, nesta campanha que jamais será apagada das páginas de nossa história.
    Quem tinha condições, saía do lugar para só retornar muito tempo depois para contar os prejuízos e outros foram embora para outras plagas.
    As casas de comércio eram saqueadas, sendo tudo levado ou destruído. Geralmente os fanáticos levavam víveres, animais para abate e montaria, bem como armas e munições.

Casa de morada de Francisco Martins Haas 1914.Invadida por jagunços.

                   A Luta pela Retomada da Vila de Papanduva
     O Batalhão tático recebeu a incumbência de retomar Papanduva, das mãos dos jagunços, cujo objetivo já havia sido traçado.
  Papanduva passou a ser, com mais insistência atacada per sertanejos dos bandos de Aleixo, Tavares, Alemãozinho e outros. “Assim fizeram os sertanejos nos dias 18, 19, 20 e 21 de novembro de 1914. Os militares, que conseguiam abrir claros nos grupos adversos, chegaram a ficar quase sem munição de guerra, tendo que repelir o inimigo a arma branca”. (General Setembrino de Carvalho, apud Alves da Rosa).
     São passados muitos, mas a memória popular ainda se mantém viva e guarda resquícios dos horrores e dos prejuízos da época do fanatismo.
     Ainda em novembro de 1914, a força do Major Lage sediada em Papanduva foi remuniciada e devidamente reforçada. O comboio de munição veio escoltado por uma guarnição de infantaria, com 200 homens do Exército, que chegou a tempo de auxiliar no desbaratamento do inimigo na sua última investida a sede da vila de Papanduva.
    Por aqui permaneceram as forças militares do Paraná guardando a vila até o início de 1915. Dramático foi o episódio ocorrido na localidade de Queimados quando a 28 de novembro de 1914, vaqueanos, civis e militares em combate de fogo cerrado, desalojaram e botaram em fuga o último grupo de jagunços, deixando no campo de luta 30 fanáticos mortos, mais de 60 feridos, além de 150 animais, arreamentos, cangalhas, munições e armas.
     Anos depois se achou neste local uma pistola enferrujada e o lugar passou a chamar-se Pistola, nome que perdura até hoje.
  Heróis papanduvenses lutaram contra grupos de fanáticos. Relatos destes embates se acham na obra Resgate de Memórias – Papanduva em Histórias.
   O conflito do Contestado teve grande significado no contexto regional do Planalto Catarinense, concorrendo para o empobrecimento da região e contribuindo com o processo de litoralização do Estado de Santa Catarina.


Sinira Damaso Ribas 2004



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